Foi num desses posts perdidos na timeline do facebook que parei para ler. Lá dizia: não perca seu tempo com a pessoa errada. HAHAAH que ironia, não, moreno? Segundo a matéria, eu perdi. Perdi tempo com você, gastei palavras, deixei meu melhor em algo sem futuro, porque afinal, você não era o certo.
Ah, moreno, se a autora desse texto soubesse o quanto parece errado dizer isso em voz alta, quanto mais propagar por aí... mas ela não sabe, né, rapaz? Ela não viveu nossa história. Ela não viu –nem vai- o quão bom é gastar o tempo com o errado. Nós fomos errados, ambos certos para o outro errado. Ambos a procura do certo fazendo papel de errados. Demos o melhor de nós, né?
O errado um dia já pareceu tão certo... você parecia tão certo. Eu parecia tão precisa, tão exata. Ainda bem que não combino com as exatas, né moreno? A gente bem sabe, mas entrei na sua equação. Eu fui aquele sinal errado no iniciozinho, que você nem notou e após páginas tentando resolver, não conseguiu chegar a resultado nenhum. E você, rapaz, foi aquela vírgula completamente fora do lugar que deixei passar sem querer, e ao tentar reler, vi que não havia coerência alguma. Ela não pertencia àquele lugar, deixava a frase –e a mim- uma bagunça. Se bem que, de vez em quando, não sou de dispensar bagunças, principalmente aquelas que bagunçam qualquer certeza pontuada. Ah, moreno, acho que eu adoro uma bagunça.
E, ao fim do texto e da equação, percebemos que a culpa não era do outro, era nossa, eu que pontuei, você que trocou o sinal, como o outro poderia ter culpa de uma coisa que nem entendia? Mexer na bagunça um do outro geraria uma miscelânea sem volta, e como admiti, adoro bagunça, mas voltar ao ponto referencial sempre deu-me certa segurança. Então acho que foi isso, né rapaz?  Nós fomos errados na hora certa.
E, perdoem-me os que afirmam não valer a pena investir tempo, disposição e sentimento em algo que não tem futuro, apenas não consigo concordar. E tenho certeza de que você também não, moreno. Ninguém deveria. Como saberia eu que não éramos os certos um para o outro se não tentasse? Eu tinha, precisava dar o melhor de mim, tentar com fervor. Foi o que fiz, rapaz. E só assim, só vendo que o certo temporário não era meu certo permanente, e sabendo que fizemos o possível, foi que pude seguir em frente. A gente não sabe se não tenta. E felizmente eu resolvi tentar.
Sempre haverão controvérsias, moreno, no entanto se teve uma coisa que não perdi, foi tempo. Não, meu bem, só perdemos algo que nos pertence, tempo não é uma dessas coisas. E eu, rapaz, prefiro aproveitar meu tempo tentando, investindo em vários errados. Quem sabe, né? Quem disse que o certo estará a minha espera? Muito pior, quem pensa encontrar o certo com uma placa sinalizadora? “Acabou sua procura, sou o certo” HAHAH!  E se ele sequer existir? Não, meu caro, não, recuso-me à privação.
Ainda vou conhecer tantos errados que não caberão nos dedos das mãos, então vou partir para uma lista, ou algo do tipo. Ou talvez eu simplesmente goste de esquecê-los tempos após. Enumerar limita. Vou sorrir para os errados até as bochechas doerem e rir até o sol se pôr. Eu vou contar minhas histórias para todos eles e deixar meu perfume de lembrança. O como não importa, eu só vou, como fiz com você. Como continuarei fazendo. Vou continuar marcando e levando pedacinhos de cada um comigo, de todos eles... até estar cansada. Até não encontrar mais um errado que me faça querer tentar –ou até esbarrar no famoso certo-, e se ele não aparecer, tudo bem também, já que o tempo antes dele não foi perdido, ah, não, isso não.
Desculpe então, mas não vou perder tempo com a pessoa errada, moreno.
 Vou ganhar. 

— Bruna Barp



OBS: O texto em NADA tem a ver com a vida pessoal da autora. A situação e personagens são apenas fictícios. 



Foto: We heart it
Eu me dei conta de que nunca li o mesmo livro duas vezes. Acho que, bem possivelmente seja porque não gosto. Não gosto de reler o que já vi, o que já sei como termina. É, acho que a resposta para a gente é essa, moreno: eu não gosto de ler o mesmo livro duas vezes. E sim, me aposso de uma analogia barata para explicar que não consigo, rapaz. Não consigo, não quero e nem gosto.
Nós tentamos e foi bom, moreno, foi bom acordar meses seguidos sentindo o mesmo perfume no travesseiro ao meu lado. Foi bom fechar os olhos e lembrar que aqueles olhos profundos estavam bem ali, ao meu lado, logo atrás das pálpebras fechadas que acompanhavam um sono tranquilo.
Foi tão, mas tão bom, moreno, que agora eu preciso ir. E você deve ficar. Ficar aqui ou seguir para o lado oposto ao meu. E se isso não fizer sentido para você, eu só peço calma, estou tentando explicar. Sempre achei-me bem provida de defesas, já que a palavra é a melhor arma que temos para usar e eu, modéstia a parte, sei usá-la muito bem. No entanto, ao que parece, elas me fogem quando se trata de você, moreno. Logo elas, minhas escudeiras fiéis, me abandonam quando o assunto é justificar sua ida. Ou meu apelo para que vá.
Tente acompanhar meu raciocínio, moreno, sempre quis ir a novos lugares a repetir os velhos e monótonos em que já quase nos sentíamos em casa. Optei o tempo todo por bebidas diferentes e usava apenas um frasco de cada perfume, sem repetir, sem me apegar ao cheiro ou às lembranças que ele trazia. Embora neste exato momento isso pareça completamente contraditório, já que não consigo passar por um homem qualquer que use teu perfume e não lembrar de tudo. Tudo que eu quero deixar ir, que eu costumo deixar ir, moreno. Porque costumo deixar o passado ficar no passado e aceitar de bom grado o novo. E, disso tudo, você bem sabe.
É por isso que a única explicação que encontrei foi essa, moreno: eu não gosto de ler o mesmo livro, e não quero dispensar surpresas tampouco expectativas. Só que ficando com você, elas estão me dando adeus, rapaz. E antes que se engane, não estou dizendo que nosso tempo foi vago, jogado ao mar e que pretendo esquecê-lo. Ah, moreno, não se atreva a pensar isso! Nosso tempo juntos foram os dias bons de meus últimos meses, até deixarmos a rotina entrar neles e, devagarzinho, se apossar de cada gesto novo ou bom que praticávamos. Nosso amor era bijuteria, moreno, a rotina feito água. E, para ser honesta, recuso-me a viver um relacionamento enferrujado, sem cor ou outros moldes. Por isso estou pedindo que vá, moreno, eu não quero tentar de novo. E por quê? 
Porque eu não leio o mesmo livro duas vezes, amor, e acabei de guardar o nosso na estante. 

— Bruna Barp



OBS: O texto em NADA tem a ver com a vida pessoal da autora. A situação e personagens são apenas fictícios. 



Foto: We heart it
Fecho a conversa de WhatsApp e bloqueio a tela do celular. Recostada na cabeceira com a coluna ereta, mas o coração torto. Torto de tanto apanhar, moreno. E eu resolvi me poupar disso a partir de agora. A gente já tentou três vezes, e foram três verões daqueles, hein? Prometo não esquecer do pôr do sol refletido nos teus olhos âmbar. Nem dos teus braços fortes ao meu redor ameaçando jogar-me ao mar e de meu único bote ser teu beijo. Eu prometo não esquecer do bronzeado marcado no corpo e na vida, minha pele vai voltar a ser branquinha, mas dentro vão restar manchas. 
Fomos mais do que achamos poder ser, tentamos mais vezes do que achei me permitir, sofri mais vezes do que achei resistir. Olha, se tem uma coisa que descobri é que sou forte mesmo. Ou isso ou meu coração teve um surto de adrenalina, isso é possível? Nem sei. Três vezes é bem mais do que as pessoas se propõe a tentar, a reconstruir, a juntar pedaços. E você juntou meus pedaços mais vezes do que pude contar ao longo dessas três tentativas, mas também, moreno, a gente conserta o que quebra, né? O mínimo que tinha de fazer era recolher meus cacos. Ultimamente eles já nem eram foscos, sabe? Continham aquele brilho furta-cor no reflexo, que mostrava bem como me sentia.
Eu estava em pedaços, rapaz, por sua causa. E, contrariando todos meus instintos, ainda queria que meu torturador passasse merthiolate nas feridas. Por isso meus pedaços brilhavam, eu estava quebrada, mas ansiava por qualquer toque seu, mesmo que fosse para tentar me reconstruir. Reconstruir algo que seria quebrado em seguida, e nunca me enganei em relação a isso, moreno, a gente ia e vinha e eu sempre ficava aqui, perdida em meus cacos a espera de alguém que viesse me ajudar a ajuntá-los, e era sempre você. Todos os verões.
Sempre que o sol tocava minha pele e fazia sentir que os raios da melhor estação despontavam no horizonte, eu sabia que você viria com ele. E que iríamos nos jogar no mar e nesse nosso caso de amor não resolvido. Eu vivia o ano todo, três invernos esperando o verão, e, ao contrário do que todos pensam, não era pelo sol, bem, ou sim, mas meu sol tinha outro nome e me causava outro tipo de calor. E meu ciclo era sempre o mesmo, moreno. Andava por entre as ruas do outono e, conforme as árvores perdiam suas folhas, eu ia perdendo partes de mim pelo caminho. Chorando o que passou, o que ficou, e o que já não era. Porque nós já não éramos.
E por mais que a expectativa de viver um amor de verão todo o ano me consumisse e nutrisse quase por inteira, não era o bastante, e as minhas bordas sem recheio começaram a rachar. E doeu, rapaz, como doeu. A praia que soprava um vento gélido chicoteava meus cabelos no rosto, e a areia em movimento arranhava minhas pernas, só que eu não ligava. Nem pra chuva, nem para os flocos de neve, ou mesmo o florescimento de tudo à chegada da primavera. A única coisa em que conseguia pensar era que a primavera era a véspera de minha estação completa. Da nossa estação.
E só por isso resolvi parar, moreno. Não posso viver a semana aguardando a sexta-feira e sua ligação apressada com ela, não posso passar os dias esperando o fim de semana para poder chorar em paz; passar o mês esperando que ele apenas corra o mais rápido possível, ver as estações como um borrão por esses meus olhos úmidos o tempo todo. Não posso viver deixando que meu sorriso dependa do verão, moreno. Não posso aceitar um bronzeado ambíguo, uma praia incompleta, um relacionamento de estação, rapaz. Porque eu não sou flor para viver nessa de renascer toda a primavera, ou verão. Não, moreno, eu quero, preciso, exijo mais do que uma estação, uma temporada de verão.
— Desculpe, a ligação tá ruim...
— O quê? Morena, mas estamos digitando...

A ligação telefônica continua impecável, moreno, a nossa é que estourou o pacote. 

— Bruna Barp



OBS: O texto em NADA tem a ver com a vida pessoal da autora. A situação e personagens são apenas fictícios. 



Foto: We heart it
Bom, morena, depois de tanto ouvir os outros dizendo que a gente não daria certo, que era melhor me largar de mão, acho que você resolveu ouvir.
Eu via nos olhos de sua mãe toda a vez em que chegávamos ao almoço de domingo, que não era eu quem ela queria ali, segurando a mão da garotinha dela. Seu pai, por outro lado, conseguia disfarçar melhor, e até oferecia uma cerveja, comentando sobre o futebol na tela da TV vez ou outra. Já sua avó, ah, morena¸ela era a que mais me compelia, já sentiu como se os olhos de alguém pudessem despi-la e julgar ali mesmo? Eu detestaria se alguém te causasse essa sensação, mas os olhos envoltos por rugas dela não eram gentis, tampouco esforçavam-se para ser.
 Enquanto me arrastava pela cozinha, com os dedos entrelaçados aos meus, cumprimentando a todos os parentes que rodeavam a mesa, eu me sentia cada vez menor. E, ao fim de tudo isso, acho que eles conseguiram convencer você de que eu não era o cara certo. Mesmo me sentindo gigante até quando me sentia pequeno, só por ter a sua mão ali, na minha.
É, morena, os dias foram passando, mas teu perfume não. Minha camiseta, a última que você usou é a que mais ando vestindo. E relaxado ou não¸ nem quero lavar. Ainda restaram algumas coisas suas perdidas pelo apartamento, guria, e espero que não lembre-se delas, porque não quero abrir a porta para mais despedidas.
E eu achei, achei que tinha perdido. Que sua família e certas amizades haviam me vencido, que sua mãe havia te convencido sobre ele, que era tão melhor que eu e enchia os olhos de sua avó daquele apreço que eu desconhecia. Ele é o cara que todos  sonharam pra ti, morena, mas quem é o cara dos teus sonhos?! Fala pra mim, quem é? Não venha me dizer que tudo mudou, que eu não sou mais quem você quer aí, como se você também não fosse quem quero ver ao acordar.
Não, morena, não minta para mim porque vejo nos teus olhos. Esses teus olhos verdes. Não tente dizer a si mesma que não são as minhas mãos que quer no teu corpo, e nem a minha voz no teu ouvido. Eu sei que errei, garota, e só ajudei para confirmar as teorias dos que te rodeiam. E como podemos ser errado, se é a única coisa que sinto ser certa? Então só o que te peço é que confie em mim, e volte pra cá, morena, para onde reside tua escova de dentes, e teu coração. Volta pra cá porque ainda estou aqui, com aquela última camiseta usada e dois ou três cosméticos que eu nem sei para que servem.
Volta, morena, porque eu sempre fui o cara que sua família desaprovou, mas resolvemos enfrentar isso juntos quando você disse não ligar, lembra? Então não me diga que não, que não sou mais eu, que não quer mais as minhas mãos em ti e tua boca na minha. Não diga, porque seus lábios não mentem, e sei o que você sente.

Não me diga que não, morena, eu fico com você mesmo sendo proibido. 

— Bruna Barp



Janeiro: Uma carta para você no passado, há 10 anos
Olá, antiga eu. Bom, nós temos 8, quase nove anos. Já vai começar a terceira série, hein? E todo mundo já te trata como gente grande, mas eu sei que tu não és. Tente não me ridicularizar como se eu não soubesse quem tu és, ou estivesse falando qualquer asneira, e eu sei que acaba de revirar os olhos com isso, como quem diz “ela acha que com isso me convence”. É, eu sei que não.
Bom, eu tô aqui, dez anos depois, sentada na frente de um notebook que tu ainda nem tem, escrevendo isso. Seria show se a gente pudesse voltar no tempo e tu, que sou eu novinha, pudesse mesmo ler isso. Daria para mudar certas coisas, ficar atenta a outras e fazer algumas exatamente do mesmo jeito. Então vamos lá. Brinque muito. Eu sei que a gente ainda brinca e que ADORA bonecas Barbies, e fique tranquila, guardei todas arrumadas, com o cabelo maravilhoso e a roupa impecável. Você tem uma amiga na terceira série, no início não parece muita coisa, mas depois que ela se mudar para o seu bairro e vocês começarem a passar as tardes juntas, vai sim, ser muita coisa. Tu vai adorar ela, mas daquele teu jeito torto. Seja paciente, mantenha a maior parte das atitudes, só não a deixe ir. Eu sei, até agora não sabemos como foi que a distancia aconteceu, mas o fato é que ela aconteceu e não deve deixar isso acontecer de novo quando forem separadas de turma na quarta série.
No ano seguinte tu vais mudar de escola, conhecer uma galera legal, e outras que: segue a intuição e mantém distância, eu não fiz isso tão cedo quanto gostaria, então faça, logo. Não ouça o que as pessoas dizem sobre você em relação a nada, NADA daquilo ajudou a gente, só retardou nossa experiência de amor próprio, e ela te fez um bem danado. Em casa e com a família está tudo bem. Na sexta série tudo vai ocorrer da forma como deveria e nada muito relevante realmente aconteceu além de esbarrar com amizades maravilhosas e que serão muito duradouras. Mantenha como está e siga em frente.
Na sétima série fará uma amiga maravilhosa, mas a amizade de vocês só vai durar um ano. Parece que a vida tira umas pessoas da gente. É aí, com 13 anos, que vai ler Crepúsculo, o livro que despertará teu gosto pela leitura. Também vai conhecer a série Diários do Vampiro, leia, é realmente boa e totalmente diferente da série, que virá a assistir anos depois. Também vai escrever teu primeiro livro, para uma atividade na escola e se sentirá, finalmente, fazendo a coisa certa.
Aí vem a oitava série. Meu primeiro impulso é dizer: fica longe dele, segue tua intuição, não se deixa levar pelas músicas da Manu Gavassi, em especial, Garoto errado, você vai ouvir muito ela. Mas o que vou dizer é: vai. Faz tudo exatamente igual, ouve aquela música do E.I. que ele dirá lembrar outra pessoa, escreve textos idiotas e sonha acordada. Se joga nesse sentimento novo, porque vale a pena. Não, a gente não encontrou o amor da nossa vida, eu ainda nem sei se ele existe, a gente só encontrou o amor. Vive como viveu, faz da forma que fez. Vai dar frio na barriga, umas atitudes idiotas e todo aquele clichê, mas segue em frente.
Em março desse mesmo ano tu criarás o blog, que será um refúgio no início, somado a tua vontade fervorosa de colocar tudo no papel. Se joga nisso também, ainda temos o blog e parece que está começando a dar certo. Escreve com o coração, não esqueça disso jamais, porque se tem algo de que me orgulho na gente, é isso.
Voltará a ter uma amizade antiga e ela se tornará a tua melhor amiga. Sem segredos. Essa amizade vai durar não muito, mas tão intensamente que vocês vão pensar que é pra sempre. E viva como viveu, foi maravilhoso enquanto durou. O primeiro ano do médio será um misto: amizades em ascensão, união, enfim, é o ano das tuas melhores amizades, então aproveita(e curte muito as festas de 15), borboletas no estômago e coração partido. Não se preocupe, ele logo se recupera. Mas não esqueça de fazer o que eu não fiz: diga o que pensa, grita enquanto há tempo, faz um barraco, escândalo, como quiser chamar. Foda-se o que as pessoas vão falar, faz enquanto pode. Ah, e teremos nossa primeira crise de ansiedade.

Segundo ano será o de transição entre a melhor amiga ainda na tua vida, para o ano em que ela sairá dela. Vai conhecer pessoas legais, aproveitar, e firmar amizades antigas. Tente não brigar tanto com a família, realmente não adianta, nossa mãe não muda de opinião. O terceiro ano te mostrará que as coisas podem durar e doer mais do que o previsto, em relação a tudo. Mas ainda será um ano muito bom, em contraposição às despedidas que ele traz. É teu último ano na escola e as amizades que mantiver firme ali, serão duradouras, cuide delas, por favor, hoje em dia são tua caixinha de segredos, e valem mesmo a pena.
Vai ter uma festa de formatura maravilhosa após enfrentar um ano que durou o mesmo período dos outros, mas parece ter sido um terço deles. Há pessoas que ficarão para trás junto com a escola, mesmo que não queira admitir para si mesma que ainda os leva consigo. Ah, a gente vai morrer de dúvida sobre estudar Jornalismo ou Letras, e tentar muito convencer nossa mãe sobre ir estudar na UFRGS, em Porto Alegre. Ela não vai ceder, mas tente mesmo assim, para poder dizer o bom e velho “eu avisei”. Gostaria de dizer a você sobre qual curso optamos, mas não vou. Decida sozinha, eu sofri para isso e não vou lhe entregar a resposta de mão beijada. De toda a forma, acabaremos fazendo o que amamos: escrevendo. E não quero deixar de mencionar as amizades boas que fará na faculdade, ignore o que não lhe faz bem e abrace quem merece. 
A essa altura nós já temos mais dois livros escritos, um você já não gosta, o outro precisa de revisão, mas tu vives procrastinando. Não posso contar em que trabalhamos, porque senão entrego nosso curso escolhido, e como disse, é uma decisão só tua. Nossa autoconfiança ainda é meio bamba, mas às vezes ela põe um salto e vai, melhore isso, use o salto sempre. A relação com teus pais está boa, e com tua irmã, maravilhosa. Ela continua sendo a tua melhor companhia, mais que isso, amadureceu muito para a idade e te entende uns 90% do tempo. Não se esqueça de agradecer a ela por comprar um livro que nunca virá a ler, chamado A maldição do tigre, que hoje é sua série favorita(nós até estamos lendo outro livro da mesma escritora), é maravilhoso. 
E por fim, quero pedir algumas coisas. Ame quem quiser amar, e beije o dobro. Você terá medo de se jogar nas coisas porque se importa muito com o que as pessoas pensam, começa a mudar isso agora, desde já, no minuto em que terminar de ler esta carta. Isso é uma ordem, e se não me obedecer, vai se prejudicar no futuro. DIGA O QUE TEM A DIZER. Não deixe para amanhã, nem depois, ou mesmo se prive de falar por orgulho. Esse teu orgulho é uma merda e não serve para nada.
Ah, outro conselho valioso: o que tu fizeres na escola, ficará na escola. Então, enjoy! E por fim, se jogue mais nas coisas, e sei que já devo ter pedido isso ao longo da carta, mas é porque você realmente precisa me ouvir, se jogue sempre que sua intuição mandar. E leia Crepúsculo o quanto antes, porque vai despertar teu amor pela leitura, e a gente perdeu anos sem ler. Corre assim que lançar.
E é claro, jamais largue a escrita, teus livros lidos e escritos. Reescreve uma, duas, três vezes. Porque vai dar certo, teu sonho está bem ali, há um passo. Só não vá desistir metros antes. A gente ainda não sabe de nada, e continua tentando achar uma resposta pra tudo. Segue firme, continua transparecendo tranquilidade mesmo quando tua cabeça está um turbilhão e não se esquece de que a gente sempre foi uma bagunça.
Não seria diferente HAHAH


Foto: We heart it
Agora, menina, senta aí, porque o papo é entre a gente.
Eu também já me senti insegura e prestes a desmoronar. Já olhei no espelho e não gostei do que vi, tomei banho de demaquilante e tentei outra vez. Qualquer coisa pra disfarças as imperfeições que pareciam estampadas na minha testa.
Sabe, amiga, todo o mundo passa por essa fase, nem aquela garota popular e que todo mundo idolatra na sua escola, sempre gosta do que está refletido no espelho. E o porquê pra isso é bem simples, menina, a gente vive numa pressão que não dá pra controlar.
Hoje a moda é cabelo ruivo, amanhã platinado e semana que vem já não sei. Hoje você troca seu castanho escuro pelo ruivo, mas amanhã já não serve. Cabelo escorrido é chato, muito cacheado é rebelde, use um meio termo. Saia abaixo do joelho é santa, muito a cima é puta. Sem cor nos lábios é sem graça, vermelho é um pouco vulgar. Se você tem muito peito parece gorda, se não tem é magrela, nos dois casos: malha pra melhorar isso aí. A barriga tá marcando na blusa? Existe academia pra quê, oh preguiçosa?!
É assim mesmo, minha cara. Todas nós passamos por essas pressões(e eles também passam), e se a gente não para e diz CHEGA, a coisa toma proporções estranhas e acaba mudando a gente, ou machucando. A verdade é que é sim, difícil lidar com todo esse pré-julgamento do meio termo perfeito, nem muito nem pouco. E enquanto algumas pessoas são vangloriadas por atingirem o padrão, outras correm atrás da bendita fórmula a vida inteira. Ou se conformam em não conseguir e viver infeliz.
Porque, cá entre nós, amiga, há pessoas que não conseguem se aceitar, se os outros não as aceitarem. E isso é perfeitamente entendível, como viver de boa com a gente com tanto dedo apontado para nossa cara?! Olha, eu também não sabia, mas aprendi. Nós aprendemos uma hora ou outra, menina. Então me faz um favor? Goste de si mesma.
A gente precisa se amar antes de tudo, para as coisas darem certo. Amar a cor e forma dos cabelos, o brilho diferente nos olhos, a grossura da coxa e todo o resto. A gente precisa vestir a roupa que nos faz sentir confortáveis, que nos faça sentir diferente, ou simplesmente LINDA! Veste a roupa que mais gosta e passa aquele batom colorido(que você ama) que tenta evitar. Dá uma volta na frente do espelho e fala pra si mesma, que é assim que vai ser daqui em diante. É isso que vai ser.
Essa pessoa que olha no espelho e gosta do que vê, que vai usar a roupa do tamanho que gostar sem se importar com a barriga saliente ou a suposta falta de peito. Você não deve ser nada que não queira, e precisa entender isso. Precisa aprender a filtrar os comentários maldosos de pessoas que vivem para apontar o dedo. Supera aquele garoto escroto, aquela colega de escola que também não está nos padrões, mas desconta a frustração dela em ti. Deixa de lado, menina, ou ri na cara deles.
Eu vejo você tentando mudar por aquele garoto que gosta, ficando loira porque ele diz preferir lorinhas, malhando sem vontade porque ele vive na academia, deixando de comer aquela batata frita das boas por um brócolis. E nada disso adianta, amiga. Para que alguém possa nos amar, precisamos conseguir fazer isso primeiro.
Então investe nisso, menina, porque o amor mais bonito é aquele que vem de dentro, aquele amor que transborda pela singularidade que existe na gente, e esse amor? Ah, amiga, esse é do tipo que ninguém mais pode te dar.

E amor próprio, menina? Esse sim vicia. 

— Bruna Barp



OBS: O texto em NADA tem a ver com a vida pessoal da autora. A situação e personagens são apenas fictícios. 



Foto: We heart it
Boa noite gente!
Hoje, ao contrário dos últimos posts, venho anunciar um "projeto" que encontrei no blog Garota do Interior.
Achei a ideia fantástica e farei o possível para cumprir, é claro que o proposto são cartas, mas resolvi postar aqui, que acaba sendo um diário, muitas vezes. Lindo seria se pudesse escrever e scannear, no entanto, sabem a preguiça? Ela não deixa. Então, uma vez por mês, teremos a carta do mês. 
Há tempos venho lendo e acompanhando alguns projetos que o pessoal cria por hobbie e finalmente achei um que não exija muito tempo de mim, já que é tudo bem corrido. Uma carta por mês, com tema não muito específico, deixando minha convidada de sempre, a liberdade, sentindo-se em casa. 
Bom, então é isso. Sinta-se a vontade para participar. Quem quiser me enviar as cartas por e-mail(Autores), quem sabe não posto uma por mês? HAHAH
Beijinhos da Bru!
Vou começar com um pedido de desculpas, é, acho que sim.
Desculpe-me, moreno, eu achei que poderíamos dar certo. Desculpe-me por ter aceitado o pedido de namoro, aquele dia no parque, acompanhado de balão e churros. Eu achei que poderia fazer isso, sabe? Para ser honesta, ainda acho que existem pessoas capazes de aprender a amar outra, porque quer, porque faz bem ou porque o outro a ama. Mas esse não é meu caso.
Eu descobri, moreno, que por mais agradável que seja estar ali, ao seu lado, por mais que eu te queira bem e de maneira alguma deseje causar qualquer dano, eu não te amo. Eu não te amo e dizer isso em voz alta é um favor que faço a nós, meu caro. Um pouquinho de afeto não me basta, um pouquinho de amor também, e não, não digo que recebo pouco afeto ou pouco amor, ao contrário, você me dá muito deles, mas eu não sinto. Eu não sinto mais que pouquinho afeto ou mais que pouquinho amor por você, pela gente, por essa relação.
E o desgaste emocional que isso me traz, acredite, é bem grande. Enquanto escrevo esta carta após dizer-lhe que não o amo, quero deixar claro que não foi falha sua, não, em momento algum. Foi minha, desde o começo, e não posso dizer que “não te amo mais”, porque na verdade, nunca te amei. Gostar a gente gosta de muita gente, apreço a gente tem por bondade, carisma, mas amor, rapaz, aquela paixão de fazer as pernas bambearem, bom, isso eu nunca senti.
Então, antes tarde do que nunca, eu decidi colocar os pingos nos I’s, e terminar com isso tudo. É covardia minha levar mais meses, ou até anos, para tomar coragem de dizer o que já pode ser dito agora. Seria errado da minha parte usar desse teu amor para me sentir segura, para ter um bote salva-vidas, ou para alimentar meu medo de não ter alguém. É por isso, meu bem, que resolvi pensar em mim.
Pensar na pessoa que estou deixando pelo caminho ao insistir nisso. Pensar no tanto que essa relação me sufoca sem querer, e em como estou morrendo sem protestar. Resolvi pensar que, se o problema sou eu que não sei lidar com você, nossa relação que realmente não tem futuro ou eu que ainda não estou pronta para destruir a barreira emocional que me envolve, não importa, o que importa é que preciso olhar para mim.
Tenho que lembrar da pessoa que há aqui, escondida e reprimida, mas pronta para sair correndo! Tenho de lembrar que aqui dentro ainda mora alguém, alguém com um medo terrível de magoá-lo, mas com as expectativas e planos saltando das veias! Alguém que precisa se libertar, libertar você, e ir viver.
Olhar no espelho e saber que eu não tenho obrigação de levar as coisas adiante só porque não há um motivo catastrófico para justificar minha renúncia. Que não preciso justificar as coisas inventando desculpas sobre haver outro alguém, ou sobre não te amar mais. O motivo é que eu não quero mais, moreno. E estou libertando nós dois disso antes que seja tarde, antes que o apego me impeça de abrir as algemas que me prendem a ti. Antes que o apego me faça desistir do amor.

É por isso que eu tenho que dizer: vai. Vai, porque eu já fui, eu nunca nem vim.

— Bruna Barp



OBS: O texto em NADA tem a ver com a vida pessoal da autora. A situação e personagens são apenas fictícios. 



Foto: We heart it
Aquela estrela cadente que cruzou o céu numa noite escura, a moeda que joguei na fonte, o pedido de ano novo por algo bom, os dedos cruzados, todas elas me levaram até você, moreno. Aquele cara que jogava conversa fora e contava piadas sem graça.
Aquele cara que estava ali, agora, deitado no sofá da sala, assistindo a um programa qualquer. Foi você que elas me trouxeram, ou foi a você que me levaram. Era sobre você que eu lia nos romances, com tantos rostos e cortes de cabelos, olhos de cores variadas, mas que continham sempre aquela sonhada profundidade em que eu poderia me perder, e eu me perco, moreno.
Perco-me nessa tua risada solta e te deixo se perder no meu corpo.  Me perco nesse olhar que me envolve e me leva sem que eu se quer proteste. Era você, rapaz, o tempo todo. Em todos aqueles filmes de romance, todas aquelas músicas clichês, toda aquela coisa que eu já estava cansada de assistir minhas amigas procurando.
Era sobre você que todos eles falavam. E a cada dia, cada toque, cada sorriso ou mesmo quando diz meu nome enquanto dorme, segredo que me fez jurar guardar, eu tinha mais certeza. Mais certeza de agradecer por ser você ali, e não qualquer outra pessoa. Por ser tão na medida certa pra mim quanto pude pedir. Por ser quem é e mais ninguém.
A cada dia me lembro de agradecer por doar-se por inteiro, por viver esse amor sem medo, por se jogar nesse precipício comigo, usando um paraquedas só. Agradecer por segurar seu lado do elástico com fervura e empenho, sabendo que machucará a mim se soltar, e vice versa. Agradecer por ser aquele mesmo cara do primeiro dia, e continuar me surpreendendo com banalidades ou fazendo-me rir da pior piada do mundo. 
E o principal, saber que está aqui porque quer, porque me quer. Ouvir que eu também sou o teu pedido de ano novo, e que dele não abres mão. E melhor que tudo isso, que todas as sensações, sonhos, cheiros, toques e sentimentos, é saber da cumplicidade que há entre a gente, sabe moreno?
Porque era disso que eu falava quando pensava no ato de amar, isso que as pessoas intitulam como reciprocidade, correspondência... mas que eu particularmente escolhi chamar de resposta ao amor. 

— Bruna Barp





Foto: We heart it









Bom, depois de muito tempo sem resenhas e me focando inteiramente nos textos(que jamais deixarão de ser minha paixão), eu tive(TIVE!) que parar para escrever sobre esse livro. 

A capa está bem grande para que vocês memorizem-na e não esqueçam de ler!

Sinopse
"Vinte anos atrás, America Singer participou da Seleção e conquistou o coração do príncipe Maxon. Agora chegou a vez da princesa Eadlyn escolher seu noivo. Eadlyn não espera que sua Seleção seja nem um pouco parecida com o conto de fadas de seus pais. Mas ao longo da competição, ela pode descobrir que seu final feliz não é algo tão impossível como ela sempre achou."

Bem, vamos lá. Talvez tenha decidido falar sobre A Herdeira pelo fato de ser o quarto livro da série A Seleção, da autora Kiera Cass, sobre os quais já resenhei aqui. Ou talvez eu tenha resolvido falar dele porque ele fala muito de mim. Considero mais sincera a segunda opção, me identifico muito com Eadlyn, a garota de 18 anos que herdou o trono de Illéa por ser 7 minutos mais velha que seu irmão gêmeo Ahren, o príncipe. Acho que vocês já sabem que os dois são os filhos mais velhos de Maxon e America, que tiveram 4 filhos(isso mesmo gente, nosso casal gerou vários herdeiros!), Eadlyn, Ahren, Osten e Kaden. 
Não posso, infelizmente, encher essa resenha de spoiler, embora seja o que eu quero, de toda forma, o desejo de que vocês leiam é maior(HAHAH). 
Eadlyn é diferente da America, embora teimosa igual(e ah! antes que eu me esqueça, se você não leu os três primeiros, pode ler o quarto tranquilamente, não influencia muito). Ela sabe ser a pessoa mais poderosa, herdeira do trono de Illéa, a qual todos devem respeito, e sendo criada como foi, para resultar numa líder nata e independente, se vê como tal. Sem modéstias. 
Eady, como é chamada pelos mais íntimos(mas só eles mesmo, do resto ela exige ser tratada por Alteza), não quer a Seleção. E desde pequena lhe foi dito que não seria necessário, o que vinha a calhar pois estava decidida a comandar sozinha. Viver o reinado sozinha, ser dona de si. Com alguns problemas que vem ocorrendo em Illéa, a única saída de America e Maxon para distrair o povo enquanto resolvem tais problemas, é colocar em prática A Seleção. Com 35 garotos concorrendo pela mão da princesa. 
Eadlyn não quer isso, porém para ajudar seus pais e começar a cumprir seu dever com o povo, aceita. Aceita dar 3 meses de tempo ao pai, fazer a seleção durar 3 meses. É claro que outra vez fui enganada e a seleção não acaba no primeiro livro, mesma esperança arrebatada na seleção de America. Em todo caso, Eady propõe condições, entre uma delas está a de não precisar se casar com um dos 35 se não encontrar alguém que realmente ame. A verdade é que ela não planeja nem tentar e faz planos para assustar os garotos ou intimidá-los o bastante para que desistam. E essa é a segunda condição: os candidatos podem ir embora a hora que quiserem. 
Então entra a questão peculiar, singular e que me faz ter empatia pela personagem principal: ela tem medo que as pessoas a conheçam realmente. Com o decorrer da obra, percebemos que muitas vezes ela nem mesmo se dá conta disso, mas fica extremamente incomodada e desconfortável quando alguém ultrapassa sua zona de conforto, tenta saber mais sobre ela ou faz um comentário denunciando que realmente a compreende. Ela não quer ser invadida, descoberta, e muito menos sentir-se vulnerável. E é assim que se sente quando alguém a comove, por isso, passa, às vezes a impressão de insensível perante o povo e os candidatos. 
Bom, a verdade é que ela esconde os sentimentos e, quando não, é muito ponderada. Mede cada passo e palavra e não se abre completamente com ninguém, nem mesmo com o irmão, a pessoa por quem faria tudo, e que sente ser sua outra metade. 
Porém, com o andamento do livro, os candidatos começam a mudar sua opinião com pequenas coisas, como gentilezas, sobremesas gostosas(hahah), beijos singulares, surpresas e até quando lhe arrancam uma risada espontânea. Porém, até o final do livro, não temos resposta alguma. Sabemos que Eadlyn tem alguns favoritos, mas nenhum indício de decisão ou paixão mascarada. Ela realmente está indecisa até a última palavra(eu particularmente já escolhi Kile(embora tenha achado Henri fofo)).
Deixo um trecho do início do livro para que vocês vejam como ela é, e o que pensa. Na realidade, é uma pena se vocês também identificarem-se com ela, então espero que isso não aconteça. Mas de toda forma, vão embarcar na leitura que considero ser a melhor de toda a série até agora e só parar quando chegarem nos Agradecimentos da  autora. 

"Mas, para mim, fracasso seria ter uma vida conduzida por outra pessoa."
—A Herdeira

Leiam, aproveitem, e me digam o que acharam, com toda recomendação do mundo, Bru.
Sabe, moreno, não sirvo pra viver essa inconstância toda, esse vai e vem, esse hora ama, hora odeia. Não consigo viver um tanto no preto, outro tanto no branco, um pouco no riso, outro pouco no pranto. Achei que com o tempo, isso ia passar. Que íamos amadurecer, que as discussões desnecessárias iriam cessar e você veria que adrenalina de DR a gente tem só nos primeiros dois meses, depois judia.
Pensei que fosse perceber o fato de ciúmes só ser legal nos filmes e perdão infinito acontecer só nos livros, e naqueles que eu nem gosto. E eu não sirvo pra isso, moreno. Não quero acordar dia após dia sem saber se vai ser o dia do bem ou do mal me quer.  Não sirvo pra uma vida de sorteios, se eu der sorte, será dia do bem me quer. É maldade com a flor, é maldade comigo.
Não nasci para andar nesse caminho sinuoso, cheio de pedras falsas e nunca saber no que vou pisar no próximo passo. Não sei dar certo só às vezes, gostar de estar com você só às vezes, gostar da gente só às vezes. Não aprendi a amar dia sim, dia não, sorrir dia sim, dia não, xingar dia sim, dia não.
Sabe, moreno, acho que escolheu a pessoa errada, porque não sou dessas que sente certo prazer na incerteza, que gosta de correr risco, que quer viver na insegurança. Bem pelo contrário, rapaz, se tem uma coisa de que eu preciso é um chão firme, uma estrada sem buracos, é segurança. E a gente não tem isso, né? Eu vejo bem. E nem quero aprender a viver assim, não quero tentar.  Nós damos certo só às vezes, mas dispenso uma vida vivida só às vezes.
Sempre odiei despetalar uma flor por bem me quer, mal me quer.

Ou bem me quer ou bem me quero


— Bruna Barp






Foto: We heart it

Foi numa dessas festas em que toda a cidade vai, que eu fui também, e lá estava você. O vi pelas vidraças ainda antes de entrar, e,  já dentro, minhas amigas tentaram de tudo para evitar que visse você, que a gente esbarrasse, que começasse qualquer tipo de diálogo.
Eu queria ir para um lado, elas alegavam estar muito quente, eu queria a outra pista de dança, me disseram que estava cheia. É, moreno, elas estavam evitando que encontrasse você.  Porque essa era a primeira vez que saía desde o que aconteceu, a primeira vez em que sequei as lágrimas e usei o pó de arroz pra alguma coisa útil, ele realmente disfarça olheiras.
Foi a primeira vez em trinta dias em que tirei o pijama, e penteei os cabelos. Coloquei um vestido puro brilho, pra disfarçar o opaco dos meus olhos. Um salto alto, pra mascarar o meu astral, e um batom vermelho, que disfarçava qualquer coisa que tivesse me escapado. Foi a primeira vez que resolvi ver como o mundo andava, e olha só, tudo parece normal.
O universo, as energias, os astros, ninguém, ninguém além de mim viveu a sua partida, moreno. Eu permaneci lá, coberta até o último fio de cabelo por um relacionamento exaustivo que acabou em traição. Logo comigo, que sempre julguei o traidor e o traído. Só que eu fui a traída. E pensar nessa frase composta me humilha mais do que qualquer ofensa sobre minha aparência, e sabe o quanto ligo para ela. Ninguém ficou aqui comigo, juntando os pedaços de mim que foram se espalhando por aí.
Tinha você por tudo, rapaz. Desde o chinelo na porta, à escova de dente ao lado da minha. Até meu maldito vestido favorito tinha o seu perfume. Mas já faz trinta dias, cara, trinta dias que passei me afogando em potes de sorvete regados a romances clichês que só ajudaram a arrancar todas as lágrimas que tinha em mim. Era melhor dizer que estava chorando pelo filme, do que por você.
Eu fui a idiota que ficou ali e chorou por você, enquanto devia estar exatamente no lugar em que te encontro agora, né? Conta pra mim, você não sentiu nem um pouquinho. As ligações cessaram no quarto dia, mas poderiam ter durado quarenta, que não atenderia. Porque você não merecia mais, nem chances nem lágrimas. Foi por isso que justifiquei meu choro como sendo por mim, pelo tempo que perdi, por quanto me desgastei, pelo amor que te dei.
E agora, montada com o melhor que tenho no guarda-roupa, só consigo assistir às minhas amigas se empenhando para me manter longe dessa droga que você se tornou, que me levou ao fundo poço e causou isolamento espontâneo. E fico pensando quando foi que tudo ficou assim.
Quando foi que as pessoas começaram a perceber? Quando foi que elas tiveram de me proteger como muralhas, para não esbarrar em você? Quando foi que encontrar com você, passou a significar um estopim para choro ou, quem sabe, uma bebedeira infinita? Quando foi que eu adquiri essa aparência frágil que reflete no espelho da casa noturna? Quando foi que batom vermelho passou a não resolver as coisas, moreno?! É BATOM VERMELHO, ELE PRECISA RESOLVER!
Quando foi? Ah, rapaz, eu não sei quando foi, mas eu sei o que foi. E o que foi, moreno? O que foi?
A gente é que foi.
A gente aconteceu.


— Bruna Barp






Foto: We heart it

O relógio marcava quatro da manhã quando meu celular tocou. Atendi. Qual foi minha surpresa ao ouvir teu melhor amigo do outro lado da linha. Aquele mesmo, cara, que sempre me odiou, lembra? Na mesma hora pensei em desligar, deve estar bêbado. Mas aí ele me implorou “Não desliga por favor!” gritou, assim mesmo, sem vírgulas nem pausas, para dar tempo de falar antes que bloqueasse a tela.
O que diabos ele poderia querer logo comigo? O que ele mais queria era que saísse da sua vida, e, rapaz, acho que ele esteve certo o tempo todo, porque cedo ou tarde, eu saí. E logo agora, que posso dormir tranquila, sem me importar desnecessariamente em agradar os amigos do meu namorado que não vão com a minha cara, um deles me liga?
“O que você quer?!” resmungo, impaciente, com a voz rouca de quem acabou de acordar mais uma pitada do mau-humor que ele merecia. No momento seguinte em que ele começou a falar, desejei ter obedecido ao primeiro impulso e desligado a ligação quando pude. Mas eu já não podia.
Ele me pediu, moreno, pediu pra ir até lá. Aquele bar imundo de que eu nunca gostei e eles adoravam te levar. Na verdade ele não pediu, implorou. Não era ele quem estava bêbado, era você, passou da conta outra vez. Mas essa não tinha sido só mais uma vez. Impulsivo e inconsequente como era, socou um cara e, quando tentaram te impedir, quebrou uma garrafa na mesa, ameaçando todo mundo com aquele pedaço de vidro cortante na mão.
Só que eu sei, moreno, que o objeto quebrado na tua mão não era nada perto do teu coração.  Porque esse sim tava quebrado, né? Ele me disse que estava descontrolado, e, bêbado de mais, chamou por mim. Eles te acudiram e acalmaram, aí você vomitou a merda da bebida que virou no próprio corpo e começou a chorar.
E ainda estava chorando, ali, do outro lado da linha. Esperando que eu dissesse: sim, já vou. Como fiz da outra vez em que não conseguia dirigir para voltar, peguei um táxi e fui te encontrar,  né, moreno? Porque era isso que eu fazia, eu te socorria. Mas naquela época, ninguém precisava implorar, porque eu corria no primeiro toque, que tinha uma música especial quando você ligava. A situação seria comum se não tivesse socado alguém, ameaçado outros, e por fim, chorado como um bebê.
Só que eu também chorei como um bebê ao terminarmos, rapaz, e você nem ligou. Você nem soube. Porque eu não sou dessas que vai chorar em publico e gritar minha tristeza num pedido desesperado de ajuda, de socorro, de apelo. Não, moreno, eu senti minha dor em silencio até que um dia ela decidiu ir embora. E quando ela foi, você foi junto.
Ele continuou me implorando do outro lado, enquanto ouvia uns soluços e meu nome sendo pronunciado por uma voz arrastada. E aquela voz era tua. “Por favor!”, teu melhor amigo pediu “Vem pra cá, fala com ele.” Mas o que eu poderia dizer para sanar essa tua dor? Essa dor que eu senti bem antes enquanto você passava as noites nesse mesmo bar? O que eu poderia dizer se acabou?
Porque acabou de vez, cara. E se acabou para mim, cedo ou tarde acabaria para você também. Infelizmente o erro foi aprender a me amar tarde demais...
Bufei.
“Dorme que passa, moreno.”

— Bruna Barp






Foto: We heart it

E ali estava, diante dos meus olhos. Para ser honesta comigo mesma, em minhas próprias mãos. A carta de alforria, minha deixa para ir. Seguir em frente. Deixar você.
Você que acabou de desistir, que acabou de gritar o fato de não ser bom o suficiente, de saber que só faz merda, de que eu devia ir. O copo, antes cheio de Whisky agora estava em cacos pelo chão, e o líquido escorria pela parede branca.
Quem perdeu o controle não fui eu, moreno. Eu estava aqui, ainda estou, e então você resolveu perceber que não dávamos certo. Que a minha metade não era você, que eu era uma panela grande demais, e você, uma tampa minúscula. E nessa de ser menor do que o exigido por mim, do que eu precisava, foi deixando brechas pelo caminho.
E depois de me humilhar para mim mesma diante do espelho e dizer "basta" mais vezes do que posso contar, eu sempre voltei. Sempre voltei porque era isso que eu queria, que quero, é você. Eu sei de cor e salteado sobre faltar preenchimento em mim, sei de trás para a frente que não é suficiente, sei de tudo isso, rapaz. Eu só não quero aceitar, quem sabe se puxarmos aqui e ali, você estica e vira uma tampa na medida certa? Ou então eu troco de forma, e viro uma panela menor? Não importa.
O como não importa, importa que a gente permaneça. Eu e você, moreno. Eu não me importo de ouvir que faço papel de trouxa, porque não faço, e eles só sabem falar do que vêem ou ouviram falar, mas nenhum deles sentiu, nenhum deles vive minha vida, nossa vida. Nenhum deles nunca vai saber como é, e do quanto eu não me sinto sendo estúpida, porque eu te assisto, moreno, tentando dar o melhor de si, e, no meio desse caminho todo, pisar em falso sem querer.
Sabe? Tudo bem, sempre achei que fosse querer excessos, e olha só pra mim agora, admitindo que de você não preciso dos excessos, eu preciso de você, da gente, e isso me basta. 
E você acaba de me dar o que eu sonhei várias noites, acaba de me dar o que implorei para conseguir. Mas esse é o problema, rapaz, não posso ganhar essa carta de alforria das tuas mãos, não é tu que tens que me deixar livre, que deve dizer vai.
Sou eu, o tempo todo fui eu. Eu insistindo ficar, eu insistindo na gente, eu jurando a mim mesma que ia dar certo. Eu que me mantenho presa a você, esperando que me dê algo que só eu tenho. E só eu posso fazer isso, moreno, essa capacidade de me libertar dos sentimentos que embalam a vida da gente, só eu possuo. E não quero, não quero usar.

Não quero usar porque minha carta de alforria me liberta de ti, e certas prisões são libertadoras. 


— Bruna Barp





Foto: We heart it
Enquanto bebo uma vitamina de frutas diversas com muito açúcar, bebo a decisão final. É isso então. 
Acabou mais um ano e eu não fiz muita coisa, tanta coisa. E a cada fim de ano a história se repete, e faço novos planos jurando a mim mesma cumprir. Alguns consigo, outros não. A maior parte não, já que mudo constantemente e os desejos de início de ano nem se parecem com os do fim. 
Então eu decidi deixar pra lá. Deixar pra lá quem esqueceu de mim, e quem fingiu que não. Deixar pra lá aquela amizade que só amola, só enrola e não acrescenta. Deixar pra lá quem me magoou e perdoar o que for possível, não sou nobre o bastante para perdoar a tudo. Deixar de lado o que trava o riso e enterrar bem fundo as memórias do passado. Li em algum lugar que as coisas dão certo quando saímos de nossa zona de conforto, e é o que vou fazer, moreno. Esse é o último recado de 2015 pra gritar ao mundo que você vai ficar aqui, nesse ano que em menos de 24 horas acaba, e pretendo lembrar de você apenas quando a caneta escorregar e eu tiver de corrigir o 2015 por 2016, mas é bem fácil, os números se parecem, a gente não mais. 
Esse não é mais um apelo, rapaz, é um recado. Já encaixotei tudo que é meu, e ao invés de mandá-lo embora, quem vai sou eu. Sou eu porque nesse novo ano, cara, quero respirar novos ares. Outro papel de parede, outra cor de lençol, outro azulejo de banheiro. E não vou, nem por um momento, pestanejar sobre isso, porque quem diz que os opostos se atraem, não sabe bem das coisas. 
O grande fato é que não importa se é parecido, oposto ou avesso, é se a gente está disposto, moreno. E eu estava, estava de não estou mais. Plantamos nosso amor em 2015 e é nesse mesmo ano que resolvi arrancar as raízes, porque podar alguns galhos apenas, não surte efeito. E decidi olhar para o mundo a minha volta.
Porque ele é lindo fora dessa bolha em que vivemos, é lindo longe dessa pressão que colocamos, é lindo longe um do outro, rapaz. Aqui fora é lindo e eu vou aproveitar. Vou aproveitar porque tenho 366 novas oportunidades a minha frente, há horas daqui, há horas de qualquer lugar.
Eu decidi olhar o mundo com outros olhos e enxergar que tudo tem um outro lado, uma outra faceta. Decidi fazer as coisas de que abri mão um dia, sem perceber, sem querer ou porque pensei que você fosse a prioridade, e que meus sonhos podiam ficar pra depois. E eles ficaram, por um tempo. Acho que a minha sorte foi essa, sabe? Olhar para as coisas que estava perdendo, junto ao início de um ano inteirinho disposto a mudanças a minha frente.
Então nós, moreno, é uma das coisas que eu decidi deixar pra lá. É uma coisa que você já deixou. É algo que já nem dói mais. Que eu já nem quero. E é agora que tudo vai mudar. Não porque é ano novo, nem porque estou no êxtase de novas experiencias, é porque eu quero. 
E respondendo a sua pergunta, sim, meu querer é um motivo que se basta. 

— Bruna Barp






Foto: We heart it
Deus e o mundo sabem o quanto eu tentei, moreno. E foi de verdade, sabe? Todos meus esforços foram sem medidas, sem cuidado, sem poupar nem um pouquinho de mim. Porque eu era acostumada a fazer isso, entende? Me jogar nas coisas que acreditava serem certas, e você era uma delas, nós éramos.
Cada gesto, cada palavra, cada pedaço de tudo o que fiz foi um apelo, um último apelo para tentar resgatar um nós que já não existia. E antes que pense o contrário, não, eu não me arrependo de nada. De nenhum minuto gasto, nenhuma palavra dita, nada, porque eu sim posso dizer que tentei, rapaz, quando for bem velhinha, as lembranças da gente não vão me assombrar, porque você vai ter ficado aí onde te deixei, para trás.
Foi estranho parar de agir assim, largar de mão, deixar as coisas irem por água a baixo. Mas quando fiz isso, cara, foi a melhor sensação que senti em meses. E então eu parei. Parei porque era isso que faria bem pra mim. Parei porque teu sorriso era valioso, mas o meu mais. Parei porque dormir com o peito leve era bem melhor do que dormir repleta de responsabilidades. Parei porque as suas necessidades ultrapassavam as minhas, e eu quase me deixei de lado.
Eu decidi dar um basta na gente, um basta em você, e um basta nessa eu que sempre tenta de novo, que nunca desiste. A gente tem que desistir sim! E não foi por capricho, rapaz, foi necessidade. Necessidade de me sentir livre, de não carregar nada nas costas, de não arrastar alguém que nem queria mais estar comigo.
Demorei para entender que teu olhar não era mais meu, nem de ninguém, ele só estava aí, perdido numa imensidão, repleto de opções que você não sabia escolher. E parar, embora não pareça, foi o melhor que pude fazer. Pra mim, pra ti, pra gente. As coisas foram belas um dia, mas o que fazer se não eram mais? Tem tanta comida boa que eu gostava por aí, mas enjoei... Tanta roupa que caía como luva e já doei... Tanta gente que permanece sem querer e ocupa espaço limitado...

Então eu parei. Parei porque cansei de me esquecer.  Parei porque te amo, moreno, mas me amo mais. 


— Bruna Barp






Foto: We heart it