Certas prisões são libertadoras

By 00:39 , ,

E ali estava, diante dos meus olhos. Para ser honesta comigo mesma, em minhas próprias mãos. A carta de alforria, minha deixa para ir. Seguir em frente. Deixar você.
Você que acabou de desistir, que acabou de gritar o fato de não ser bom o suficiente, de saber que só faz merda, de que eu devia ir. O copo, antes cheio de Whisky agora estava em cacos pelo chão, e o líquido escorria pela parede branca.
Quem perdeu o controle não fui eu, moreno. Eu estava aqui, ainda estou, e então você resolveu perceber que não dávamos certo. Que a minha metade não era você, que eu era uma panela grande demais, e você, uma tampa minúscula. E nessa de ser menor do que o exigido por mim, do que eu precisava, foi deixando brechas pelo caminho.
E depois de me humilhar para mim mesma diante do espelho e dizer "basta" mais vezes do que posso contar, eu sempre voltei. Sempre voltei porque era isso que eu queria, que quero, é você. Eu sei de cor e salteado sobre faltar preenchimento em mim, sei de trás para a frente que não é suficiente, sei de tudo isso, rapaz. Eu só não quero aceitar, quem sabe se puxarmos aqui e ali, você estica e vira uma tampa na medida certa? Ou então eu troco de forma, e viro uma panela menor? Não importa.
O como não importa, importa que a gente permaneça. Eu e você, moreno. Eu não me importo de ouvir que faço papel de trouxa, porque não faço, e eles só sabem falar do que vêem ou ouviram falar, mas nenhum deles sentiu, nenhum deles vive minha vida, nossa vida. Nenhum deles nunca vai saber como é, e do quanto eu não me sinto sendo estúpida, porque eu te assisto, moreno, tentando dar o melhor de si, e, no meio desse caminho todo, pisar em falso sem querer.
Sabe? Tudo bem, sempre achei que fosse querer excessos, e olha só pra mim agora, admitindo que de você não preciso dos excessos, eu preciso de você, da gente, e isso me basta. 
E você acaba de me dar o que eu sonhei várias noites, acaba de me dar o que implorei para conseguir. Mas esse é o problema, rapaz, não posso ganhar essa carta de alforria das tuas mãos, não é tu que tens que me deixar livre, que deve dizer vai.
Sou eu, o tempo todo fui eu. Eu insistindo ficar, eu insistindo na gente, eu jurando a mim mesma que ia dar certo. Eu que me mantenho presa a você, esperando que me dê algo que só eu tenho. E só eu posso fazer isso, moreno, essa capacidade de me libertar dos sentimentos que embalam a vida da gente, só eu possuo. E não quero, não quero usar.

Não quero usar porque minha carta de alforria me liberta de ti, e certas prisões são libertadoras


— Bruna Barp





Foto: We heart it

10 comentários

  1. Gente do céu, como você escreve bem. Suas palavras são tão belas e cativantes que nessa madrugada irei ler mais textos seu! Ah, esse texto bem no começo diz muito sobre coisas que estou "passando", se é que me entende!

    "Que a minha metade não era você, que eu era uma panela grande demais, e você, uma tampa minúscula".

    Todo sucesso do mundo para você!
    Beijos.
    www.florigrafando.blogspot.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ahhhhhh Ane, muito obrigada! Quando o texto encaixa com um momento, não tem melhor, né?
      Tomara que goste dos outros também!
      Beijinhos da Bru! ♥

      Excluir
  2. Pelo amor de Deus Bruna, que texto foda, muito bem escrito e com um enredo ótimo. te desejo tudo de bom e que possamos sempre passar por esses obstaculos da vida de cabeça erguida. Amei seu blog, um beijo!
    www.tryciacosta.com.br

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muuuito obrigada Trycia! Desejo o mesmo a você! Fico feliz que tenhas gostado do blog, beijinhos da Bru

      Excluir
  3. Oi Bru que texto envolvente!
    É tão ruim quando a "tampa não se encaixa na panela né?" rs bjs
    Seguindo aqui!
    Se quiser dar uma passadinha lá no meu
    www.quaseinvisivel.blogspot.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Mayara! Hahahaha sim, é.
      Muito obrigada ♥, vou olhar sim hahah

      Excluir
  4. Oii, ual adorei seu texto. Ele envolve as pessoas de uma maneira sem explicação. Texto super bem escrito, parabéns.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Hahahahah muito obrigada Larih!
      Beijinhos da Bru!

      Excluir
  5. Ah que texto ein, lembrei de uns textos que eu escrevia ou melhor tentava escrever ... fiquei imaginando o drama de não ter o encaixe perfeito .. E o moreno burro.. Haha você escreve muito bem, gostei!! Um bigbeijo http://www.blahoestraich.com.br

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. "o moreno burro" HAHAHAHAH muito obrigada Lisiane!
      Beijinhos da Bru!

      Excluir