Eu não sei fazer faxina

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Começo pelo sentido mais puro da frase: eu não sei fazer faxina. 
Inicio limpando uma coisa aqui e outra ali: jogo alguns papéis fora, uma roupa para doar, outra para guardar no fundo do armário. Umas roupas de baixo que jogo fora, algumas cobertas quase nunca usadas que coloco para pegar sol. 
Uma coisa aqui e outra ali, só que sempre acabo esquecendo daquela lá. Ah, moreno, eu não sei fazer faxina! Joguei tudo fora: minhas lembranças da noite no parque, da festa divertida, do beijo suave e outro com calor. Enterrei bem fundo o cheiro do teu perfume impregnado em minhas narinas, e troquei de sabão em pó. Apaguei da agenda o número mais ligado, excluí as mensagens de texto e a conversa do Whats
Eu tentei ir com calma desta vez, já que estava acostumada a fazer faxina com pressa para terminar e sempre deixei algo de lado. Um pozinho ali, outra marquinha aqui, a borda de um papel que recortei ou uma saudade que se escondeu no cantinho da parede, não importa, algo sempre foi deixado para trás. 
E não foi falta de empenho, moreno, eu peguei a vassoura e mandei ver! Eu varri todas as lembranças e qualquer resquício de momento bom, eu limpei do cantinho aquela vontade recém-nascida de voltar atrás, deixar pra lá, reconsiderar, tentar outra vez. Passei aspirador no tapete que comprei mesmo sabendo que odiaria -o pelo te causava alergia- porque me apaixonei pela cor e gostava só um pouquinho de me sentir caminhando em uma nuvem, isso também você achou bobagem
Mas nada disso importa, rapaz, porque eu não sei fazer faxina. Eu não sei limpar a porta do meu coração dos teus resquícios e deixar o ambiente agradável para a próxima visita. Não sei abrir a janela para outros olhos e nem mesmo olhar pelo olho-mágico a outro sentimento.
Talvez a solução seja chamar um dedetizador que garanta deixar as aberturas limpas do passado, para que a cor do amanhã se instale sem manchas. Ou talvez eu deva voltar para a casa de meus pais e implorar para que me minha mãe me ensine outra vez a fazer uma boa faxina, ela dizia que eu ia fazer "mal-feito" e, bom, acho que tinha razão.
Sempre respondi que contrataria faxineira, mas ninguém limpará a sujeira que a dona da casa tornou de estimação. 

— Bruna Barp



OBS: O texto em NADA tem a ver com a vida pessoal da autora. A situação e personagens são apenas fictícios. 



Foto: We heart it

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